Análise
Canábis medicinal na Macedónia do Norte: a anatomia do escândalo que também envolve a Sérvia
O cultivo de canábis medicinal na Macedónia do Norte está sob intensa vigilância depois de uma apreensão na Sérvia ter desencadeado uma operação que confiscou 40 toneladas de canábis e uma revisão urgente das mais de 60 licenças atribuídas no país. A falta de transparência, suspeitas de corrupção e a inexistência de uma lista pública de empresas licenciadas levantam dúvidas sérias sobre o controlo estatal do sector.
Esta análise exaustiva do colaborador do CannaReporter® na Albânia, Joe Spencer, reconstrói os acontecimentos que ligam apreensões recorde na Sérvia a operações na Macedónia do Norte e levanta questões incómodas sobre responsabilidades políticas, institucionais e criminais num dos maiores escândalos de canábis medicinal dos Balcãs.
Esta é a crise mais grave que o sector da canábis medicinal enfrenta na Macedónia do Norte desde a sua regulamentação, após uma apreensão recorde de cinco toneladas de canábis ilícita na Sérvia, no final de Janeiro de 2026, que desencadeou amplas investigações. O acontecimento teve repercussões políticas e o confisco de mais de 40 toneladas de produtos de canábis medicinal dentro da Macedónia do Norte¹,². Grandes apreensões em ambos os países levantaram questões fundamentais sobre se a canábis cultivada legalmente para fins medicinais foi desviada para redes de tráfico transfronteiriço ilícito e se a protecção política ou institucional permitia a escala de movimentação alegada pelos procuradores²,³. No meio de divulgações oficiais limitadas, as acusações e contra-acusações entre os partidos da governação e da oposição em ambos os países intensificaram-se⁴.
Apreensão recorde de cinco toneladas de canábis na Sérvia
A 29 de Janeiro de 2026, a polícia sérvia apreendeu 5.002.079,18 gramas de canábis ilícita na aldeia de Konjuh, perto de Kruševac, na Sérvia central, descrevendo a operação como histórica¹,². A canábis ilícita foi descoberta numa propriedade pertencente a Rade Spasojević, um funcionário local do Partido Progressista Sérvio (SNS), o partido que está actualmente no poder, e associado a uma empresa chamada Floracom¹. Spasojević e outros dois indivíduos foram detidos por suspeita de produção e distribuição não autorizadas de estupefacientes¹. As autoridades confiscaram ainda quatro espingardas automáticas, um lança-mísseis e aproximadamente 1,5 milhões de dinares sérvios, cerca de 12,700 euros¹. O valor comercial total foi estimado entre 7 e 10 milhões de euros, enquanto os procuradores sugeriram que o valor de mercado poderia ascender a 50 milhões de euros¹.

As autoridades apreenderam recentemente várias toneladas de canábis desviada de instalações de cultivo medicinal na Macedónia para o mercado ilícito na Sérvia. Foto: GazetaExpress.com
O Ministério Público da Sérvia para o Crime Organizado declarou que o grupo operava internacionalmente e adquiriu a canábis ilícita entre 1 e 29 de Janeiro de 2026, no território da Macedónia do Norte, antes de a transportar através da fronteira para distribuição em Belgrado²,³. Foram nomeados cinco suspeitos, incluindo Nebojša Spasojević, Rade Spasojević, Ivan Draganić e Uroš Mladenovski, tendo o alegado organizador Aleksandar Mijajlović permanecido em fuga¹,². Todos os suspeitos detidos permaneceram em silêncio durante o interrogatório¹.
O Presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, enfatizou que o Estado não esteve envolvido na operação, afirmando: “A polícia encontrou cinco toneladas de algum tipo de droga. Agora, se apenas o filho sabia disso ou se tanto o filho como o pai, é outra questão, deixemos que as autoridades competentes decidam, não quero afirmar nada. Nós realizamos essa operação”⁴. O Ministro da Defesa, Bratislav Gašić, acrescentou: “O facto de alguém ser membro de um partido político não significa que o partido esteja envolvido em actividades criminosas. Não permitiremos perseguição política”.
A Sombra do Escândalo Jovanjica
A apreensão na Sérvia reacendeu as comparações com o julgamento em curso de Jovanjica, que envolve Predrag Koluvija. Em Novembro de 2019, a polícia parou Koluvija na autoestrada Belgrado-Niš por condução imprudente e deteve-o por posse de um documento de identificação policial falso⁵. No mesmo dia, as autoridades invadiram a sua propriedade perto de Stara Pazova, onde, segundo a acusação, encontraram 1,6 toneladas de canábis ilícita⁵.

Predrag Koluvija está envolvido no escândalo Jovanjica. Foto: Amir Hamzagic/ATAImages
Duas acusações, conhecidas como Jovanjica 1 e Jovanjica 2, abordavam a produção ilegal de canábis e alegadas ligações a estruturas de segurança do Estado⁵. As acusações foram unificadas e Koluvija foi a julgamento no Tribunal Superior de Belgrado, mantendo declarações de inocência até Novembro de 2025⁵,⁶.
A unidade de produção sérvia de Koluvija possuía uma licença para cultivar cânhamo industrial, mas as autoridades descobriram que muitas plantas excediam os limites legais de THC e foram classificadas como canábis ilegal. Este caso ilustra como alguns indivíduos podem tentar cultivar uma colheita ilegal de canábis sob o pretexto de uma licença de cânhamo industrial, uma situação que as inspecções adequadas e de rotina impedem.
Após a sua detenção, figuras da oposição alegaram contacto entre Koluvija e indivíduos próximos do Presidente Vučić, incluindo o seu irmão Andrej. Uma queixa-crime contra Aleksandar e Andrej Vučić foi apresentada em Janeiro de 2020, tendo os procuradores afirmado que não havia motivos para suspeita⁵. Em 2021, Koluvija afirmou que tinha sido pressionado para incriminar Andrej Vučić⁵.
As 40 toneladas de canábis apreendidas na Macedónia do Norte
Aproximadamente uma semana depois, as autoridades da Macedónia do Norte lançaram uma operação em todo o país, que teve início no passado dia 5 de Fevereiro. O porta-voz do Ministério do Interior, Goce Andreevski, confirmou que foram apreendidas mais de 40 toneladas de canábis ilícita e materiais relacionados¹,². Numa operação perto de Skopje, as autoridades confiscaram nove toneladas de flores de canábis e 1,300 frascos de óleo de canábis². Outras 31 toneladas de flores de canábis e biomassa destinadas à produção de óleo de canábis foram apreendidas na zona leste do país, incluindo áreas em Strumica e arredores¹.
O Ministério Público para o Crime Organizado e Corrupção declarou que, como as actividades estavam em curso, não podiam ser divulgadas mais informações¹. Andreevski, porta-voz do Ministério do Interior, confirmou que os investigadores estão a examinar se a canábis ilícita encontrada na Sérvia teve origem na Macedónia do Norte, referindo que um dos suspeitos sérvios, Ivan Draganić, era co-proprietário de uma unidade de produção de canábis medicinal alvo de uma operação em Skopje, a Alphapharm DOO Skopje²,³.

O primeiro-ministro da Macedónia do Norte, Hristijan Mickoski. Foto: EPA
As autoridades reportaram discrepâncias significativas entre os registos de produção licenciados e as quantidades descobertas durante as inspecções⁹. Embora as empresas envolvidas possuíssem licenças para cultivar e processar canábis para uso farmacêutico, os investigadores suspeitam que quantidades substanciais foram desviadas para o mercado negro em vez de terem como destino os canais de distribuição legais⁹.
O Ministro do Interior, Panče Toshkovski, descreveu da seguinte forma o material confiscado: “A canábis foi produzida, armazenada e mantida fora dos protocolos estabelecidos, o que significa que foi manuseada ilegalmente pelas empresas às quais foi apreendida”⁶.
O Primeiro-Ministro, Hristijan Mickoski, enfatizou o Estado de Direito, dizendo: “Não há compromisso com a injustiça e a ilegalidade e ninguém está acima da lei”⁶. Mickoski observou ainda: “Já foram apreendidas 40 toneladas e não me surpreenderia se, até ao final, chegássemos às 100 toneladas”⁶, reafirmando: “Serão também realizadas inspecções noutras instalações, como já anunciei anteriormente. Espero que, nos próximos dias, todas as empresas com licença para operar neste sector sejam verificadas”⁶.
Alphapharm e as ligações transfronteiriças da canábis a partir da Macedónia
Os investigadores identificaram Ivan Draganić como co-proprietário da Alphapharm DOO Skopje, registada em 2023 com um capital social de 529,050 euros e que recebeu uma licença de cultivo a 16 de Abril de 2024². Durante a operação na Sérvia, foram registadas alterações de propriedade, tendo os membros da família Savašić retirado da estrutura da empresa a 30 de Janeiro de 2026². Os procuradores macedónios abriram um processo e estabeleceram uma comunicação intensa com as autoridades sérvias³. As investigações confirmaram que a canábis ilícita da Macedónia do Norte pode ter sido transportada através da fronteira para a Sérvia, onde foi armazenada em armazéns operados pela Floracom².
Foco em Strumica e Recriminações Políticas
Embora as autoridades não tenham divulgado oficialmente os nomes das empresas ou dos suspeitos macedónios, os relatórios dos meios de comunicação social referiram que muitas das operações policiais no leste do país foram realizadas em Strumica e arredores¹. O partido no poder, o VMRO-DPMNE, instou os procuradores a investigar possíveis ligações entre as apreensões e figuras associadas ao partido de oposição Social-Democrata, com foco no ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Câmara de Strumica, Zoran Zaev⁴.
Zaev negou as acusações, afirmando que era uma mentira descarada que estivesse ligado aos casos de canábis e anunciou que iria processar o governo caso não houvesse um pedido de desculpas⁴. Os sociais-democratas da oposição questionaram como é que cinco toneladas de canábis poderiam atravessar a fronteira sem responsabilização, afirmando: “É claro para todos que, sem o apoio das estruturas governamentais, do Ministério do Interior e da Alfândega, é impossível que cinco toneladas de droga sejam contrabandeadas através da fronteira”⁷.
Estrutura Legal e Lacunas de Fiscalização desde 2016
A Macedónia do Norte legalizou o cultivo de canábis para fins medicinais em 2016, permitindo às empresas cultivar e processar plantas para uso farmacêutico⁷,⁸. O óleo de canábis posiciona-se como o principal produto terapêutico para doentes oncológicos, VIH e epilepsia⁸. Desde 27 de Dezembro de 2017 até ao início de Fevereiro de 2026, as autoridades emitiram 100 licenças.

O Parlamento da Macedónia do Norte. Foto: D.R.
O Ministério da Saúde afirmou que 43 empresas possuem actualmente licenças legais e 14 empresas perderam as suas licenças ao longo dos anos devido a violações⁷. Quase um terço dos titulares de licenças violou os requisitos legais ao longo de oito anos, o que evidencia as persistentes fragilidades regulamentares. Só em 2025, quatro empresas enfrentaram denúncias criminais envolvendo seis indivíduos e quatro entidades jurídicas, tendo sido apreendidas mais de 2,1 toneladas e confiscadas mais de 2,000 plantas de canábis⁹.
O CannaReporter® contactou o Ministério da Saúde da Macedónia do Norte para pedir esclarecimentos e uma lista de todas as empresas licenciadas para operar com canábis medicinal mas não obteve resposta.
O Ministro da Saúde, Azir Aliu, disse, sobre a supervisão: “As circunstâncias extraordinárias exigem medidas extraordinárias. É por isso que solicitei alterações legais para criar múltiplas comissões de supervisão quando necessário. Os controlos começam hoje e esperamos relatórios mensais claros de todos os organismos relevantes. A transparência não é opcional”¹,².
O OBRM-PDUKM, partido no poder, acusou Zoran Zaev e Venko Filipçe de manipularem o processo de regulamentação para favorecer pessoas próximas, alegando que as licenças para cultivo estavam reservadas para as suas afiliadas e que o regulamento da canábis medicinal de 2020 permitia a produção de flores de canábis que não cumpriam as normas de Boas Práticas de Fabrico (BPF), fazendo com que o óleo de canábis produzido fosse ilegal para comercialização⁸.
Implicações do tráfico de canábis para a Macedónia do Norte e para a Sérvia
A dimensão das apreensões na Sérvia e na Macedónia do Norte intensificou o debate sobre se a legalização em 2016 incentivou involuntariamente a produção ilegal e o contrabando¹⁰,⁹. Para a Macedónia do Norte, a credibilidade das exportações, a confiança dos investidores e as ambições de adesão à UE dependem agora de as autoridades demonstrarem uma supervisão eficaz, uma aplicação transparente da lei e uma reforma estrutural do regime de licenciamento¹⁰.
Para a Sérvia, o caso reforça a sua posição de proibição, ao mesmo tempo que reacende o debate sobre a reforma da canábis medicinal e expõe vulnerabilidades persistentes nos corredores de tráfico dos Balcãs¹⁰.
Referências
- Gazeta Express. (2026, February 1). Smuggling under the guise of medicine: Gambling in the cannabis business. https://www.gazetaexpress.com/en/smuggling-under-the-guise-of-medicine–gambling-in-the-cannabis-business/
- KoSSev. (2026, February 2). New marijuana haul in Konjuh came from North Macedonia; suspect is owner of a spice company. https://kossev.info/ro/nova-marihuana-u-konjuh-stigla-iz-severne-makedonije-osumnjicen-vlasnik-firme-za-zacinsko-i-aromaticno-bilje/
- N1 Info. (2026, February 3). 27 tons of marijuana seized in North Macedonia linked to Serbia trafficking. https://n1info.rs/english/news/27-tons-of-marijuana-seized-in-north-macedonia-linked-to-serbia-trafficking/
- Balkan Insight. (2026, February 10). Record marijuana busts spark political rows in North Macedonia and Serbia. https://balkaninsight.com/2026/02/10/record-marijuana-busts-spark-political-rows-in-north-macedonia-serbia/
- Wikipedia. (2026). Jovanjica case. https://en.wikipedia.org/wiki/Jovanjica_case
- Telegrafi. (2026, February 10). Mickoski dhe Toshkovski tregojnë marihuanën e konfiskuar. https://telegrafi.com/en/mickoski-dhe-toshkovski-tregojne-marihuanen-e-konfiskuar-askush-nuk-eshte-mbi-ligjin/?utm_source=chatgpt.com
- BTA. (2026, February 12). Politicians in Skopje react to scandal with Serbia seized marijuana originating from North Macedonia. https://www.bta.bg/en/news/balkans/1059198-politicians-in-skopje-react-to-scandal-with-serbia-seized-marijuana-originating-?utm_source=chatgpt.com
- Telegrafi. (2026, February 12). OBRM-PDUKM: Zaev dhe Filipçe kanë miratuar një rregullore kontroverse për kanabisin që është në kundërshtim me ligjin. https://telegrafi.com/obrm-pdukm-zaev-dhe-filipce-kane-miratuar-nje-rregullore-kontroverse-per-kanabisin-qe-eshte-ne-kundershtim-me-ligjin/
- Balkan Insight. (2026, February 10). Record marijuana busts spark political rows in North Macedonia and Serbia. https://balkaninsight.com/2026/02/10/record-marijuana-busts-spark-political-rows-in-north-macedonia-serbia/
- European Western Balkans. (2026, February 9). Another 40 tons of marijuana seized in North Macedonia. https://europeanwesternbalkans.com/2026/02/09/another-40-tons-of-marijuana-seized-in-north-macedonia/
- Alsat.mk. (2026, February 12). Kanabisi, Aliu: Kontrollet e jashtëzakonshme nisin prej sot. https://alsat.mk/kanabisi-aliu-kontrollet-e-jashtezakonshme-nisin-prej-sot/
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[Aviso: Por favor, tenha em atenção que este texto foi originalmente escrito em Português e é traduzido para inglês e outros idiomas através de um tradutor automático. Algumas palavras podem diferir do original e podem verificar-se gralhas ou erros noutras línguas.]____________________________________________________________________________________________________
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Joe Spencer
Joe Spencer is an industrial hemp advisor, entrepreneur and advocate with more than ten years of experience in cultivation, processing, supply chain development and international trade. He supports the sustainable expansion of hemp agriculture by advising growers, processors and manufacturers on cultivation, sourcing, biomass trading, extraction, market access and regulatory frameworks across multiple international markets.
Joe serves as Industrial Hemp Consultant at Hemp Broker Europe, connecting high quality producers with buyers and strengthening resilient supply chains. He is also President and Co-founder of American Alb Hemp Company, Albania’s first licensed industrial hemp firm, pioneering legal cultivation and variety registration in the country.
He chairs the National Albanian Hemp Industry Association, representing stakeholders and engaging policymakers to advance practical transparent legislation. Joe works to position hemp as a strategic crop within the global bioeconomy, climate strategy and rural development agendas.



