Connect with us

Cânhamo

Blocos de cânhamo: Como dois israelitas e dois palestinianos criaram um negócio de sucesso em Portugal

Publicado

em

Ouvir este artigo
Reading Time: 6 minutes

Esta é uma história que contraria as notícias que nos chegam diariamente do cenário de guerra que actualmente se vive no Médio Oriente e que importa aqui recordar. Dois israelitas a viver no sul do Alentejo, em Portugal, juntaram-se a dois palestinianos para fundar um inovador negócio de blocos de cânhamo para construção sustentável. O seu objectivo é incentivar a economia local com o mínimo de pegada ecológica possível e, claro, muito amor. Desta improvável relação de amizade israelo-palestina, nasceu a Cânhamor, 

Elad  Kaspin, 36 anos, e Omer Ben Zvi, 38, ambos israelitas, compraram terras no sul do Alentejo há cerca de 10 anos. Fascinados pela planta de cânhamo, quiseram implementar uma fábrica para explorar uma das suas inúmeras aplicações, a construção natural. Foi no final de 2020 que concretizaram o sonho, quando Khalid Mansour, de 47 anos e Azmi Afifi, 52, ambos palestinianos, também vieram para Portugal e compraram terrenos. Investiram juntos o capital necessário para iniciar a empreitada e, da experiência e iniciativa dos quatro, começou a aventura a que chamaram Cânhamor. “Os quatro parceiros são bons amigos e estamos muito felizes por trabalhar juntos em sinergia como palestinianos e israelitas”, dizem.

Em 2021, fomos conhecer a Cânhamor e descobrimos a história que uniu estes quatro empreendedores em Portugal. Duas entrevistas com Elad Kaspin, realizadas em 2021 e 2022, respectivamente, foram originalmente publicadas na Cannadouro Magazine e desde então a Cânhamor só tem vindo a crescer — alguns dados fornecidos abaixo poderão, portanto, não estar 100% actualizados, pois a procura por blocos de cânhamo em Portugal e na Europa cresceu e a Cânhamor também.

Assim, no contexto actual de uma infeliz guerra entre Israel e a Palestina e numa sociedade cada vez mais polarizada, voltamos a partilhar esta bonita história, para que possa inspirar outras pessoas. Acreditamos que, enquanto seres humanos, a nossa missão é a cooperação entre todos e a busca contínua pela paz. Está em cada um de nós a capacidade de fazer a diferença, para deixarmos um mundo melhor para as gerações futuras. A Cânhamor já o está a fazer, e com um enorme sucesso.

Elad, o que é, no vosso entender, “Construir com a natureza em vez de explorá-la”?
Toda a cadeia de produção industrial, do início ao fim, explora a mãe natureza, extraindo recursos descuidadamente e produzindo resíduos sem fim. Perdemos a conexão com o lugar de onde viemos e, portanto, não levamos em consideração o alto preço que o nosso planeta paga quando tentamos ganhar dinheiro o mais rápido possível. Na Canhamôr pensamos no planeta que vamos deixar para os nossos filhos e para os filhos deles. Ou seja, pensamos no que podemos fazer hoje para que a natureza seja incluída no processo e beneficie dele, em vez de ser tratada como um recurso infinito e um depósito de resíduos tóxicos e de gases. É por isso que optamos por trabalhar o mais localmente possível e com a planta de cânhamo, que tem uma pegada de carbono negativa, para criarmos um produto realmente sem desperdício.

Os blocos da Cânhamor não levam nenhum tipo de cimento ou aditivos de endurecimento não naturais

Que materiais e métodos utilizam no fabrico dos blocos?
Usamos a parte interna do caule da planta de cânhamo. Normalmente, esta parte é tratada como resíduo e é descartada. Pegamos nesse “resíduo” maravilhoso e transformamos em algo utilizável, com propriedades incríveis. Misturamos com dois tipos de calcário português local (a conhecida cal), e um tipo especial de argila, para criar um material de construção muito forte, leve, resistente ao fogo e com um nível de isolamento térmico e acústico muito elevado. Também “respira” muito bem, eliminando quaisquer problemas de humidade comumente encontrados em estruturas existentes.

O cânhamo que utilizam é produzido em Portugal?
De momento, compramos o nosso Cânhamo em França porque a máquina necessária para transformar a planta na forma fina que usamos nos blocos, ainda não existe em Portugal (ou Espanha). Estamos a trabalhar na compra e montagem desta máquina na nossa fábrica, para podermos passar a trabalhar apenas com o cânhamo português, apoiar os produtores locais e expandir toda a indústria do cânhamo em Portugal.

Quais foram as maiores dificuldades na implementação do vosso projecto?
Ao contrário de outras empresas que fabricam blocos semelhantes, não adicionamos nenhum tipo de cimento ou aditivos de endurecimento não naturais. Isso significa que o processo de secagem e cura dos blocos leva naturalmente até 60 dias, o que traz um grande desafio logístico de armazenamento, mas nós recusamos comprometer a qualidade e os aspectos ecológicos dos nossos blocos. Outro desafio é que este é um mercado muito novo em Portugal e as pessoas ainda estão bastante hesitantes em mudar as formas conservadoras dos materiais e dos métodos de construção.

“É importante salientar que a Cânhamor só comprará e transformará cânhamo biológico”

Os projectos nascem de ideias e são feitos por pessoas. Quem criou a  Cânhamor?
Somos quatro pessoas que vivem no Alentejo, que sonharam em criar um negócio com esta planta verdadeiramente notável. Um trouxe a ideia, outro trouxe o financiamento e o terceiro trouxe a iniciativa e a acção. Hoje, as pessoas que fazem este negócio funcionar são igualmente os trabalhadores dedicados, que produzem blocos de alta qualidade todos os dias.

Que factores ditaram a escolha de Portugal e a freguesia de Colos, no concelho de Odemira, para a instalação da fábrica?
Em primeiro lugar, é a zona onde vivemos e queremos integrar esta paixão nas nossas vidas, não só como trabalho. Em segundo lugar, é uma área muito grande, de milhares de hectares de terra que não é usada e pode ser ideal para o cultivo de cânhamo, ajudando a regenerar o solo e a dar negócios a muitos agricultores locais.

A Cânhamor pretende alcançar a escala industrial?
Sim, no momento somos uma fábrica industrial de médio porte, com sete trabalhadores contratados. Em conjunto com  as autoridades locais, estamos a desenvolver um processo para construir uma fábrica em grande escala (a partir de blocos de cânhamo) para alcançar uma capacidade de produção muito maior e contratar muito mais pessoas. Pretendemos construí-la já em 2022. Quando estiver pronta e tivermos as máquinas de processamento necessárias para trabalhar com o cânhamo local, seremos verdadeiramente uma indústria Zero-Waste, aqui em Colos, no Alentejo. 

O processo de secagem e cura dos blocos de cânhamo leva, normalmente, até 60 dias

Qual é o destino principal dos vossos blocos de cânhamo? O mercado local, nacional ou a exportação?
Pretendemos vender os nossos blocos principalmente na Península Ibérica, para que possamos manter a pegada de carbono negativa e focar-nos em projectos o mais próximo e locais possível.

E a dimensão da fábrica, quantos funcionários empregam e qual a capacidade produtiva mensal? Qual será a dimensão depois da expansão para as novas instalações?
Neste momento [Outubro de 2022] temos uma fábrica bastante pequena, empregando 6 trabalhadores de produção mais 3-4 trabalhadores no escritório, Marketing, gestão etc. Produzimos entre 4.000 a 9.000 blocos por mês (dependendo do tamanho do bloco), ou seja o suficiente para fazer duas a três casas por mês, dependendo do tamanho da casa. Na nova fábrica, poderemos fazer 120.000 blocos por mês, o suficiente para construir mais de 60 casas por mês.

Além da construção da nova fábrica, a Cânhamor vai adquirir um decorticador, para poder comprar as produções de cânhamo directamente aos agricultores locais. O que nos pode adiantar acerca da capacidade desta nova máquina?
O que queremos é oferecer uma solução completa, que cumpra o nosso slogan “da semente ao bloco”, tornando toda a cadeia de abastecimento local e sustentável. Já comprámos o decorticator, que será instalado no Verão de 2023, já para processar a colheita de cânhamo do próximo ano. Estamos agora a reunir todos os agricultores que podemos para colaborar sob a égide de uma associação de produtores, que facilitará o processo de licenciamento para os agricultores, a compra de sementes, bem como o aluguer e a partilha de máquinas usadas para colheita, maceração e transporte.
A Cânhamor irá comprar toda a produção local cultivada pelos agricultores da zona que será transformada com este novo decorticador industrial de última geração, que pode processar até 2 toneladas de talo seco por hora. O nosso objectivo é alcançar uma colheita e processamento de 1.000 hectares de cânhamo por ano, já nos próximos três anos. Os nossos consultores de cultivo de cânhamo irão acompanhar todos os agricultores que desejem começar a cultivar cânhamo ou agricultores existentes que desejem mudar para o cânhamo como alternativa a outras culturas, como por exemplo o milho ou o girassol.

“Os quatro parceiros são bons amigos e estamos muito felizes por trabalhar juntos em sinergia como palestinianos e israelitas”

Como está planeado fazerem a ligação directa aos agricultores, vão encomendar as produções ou os agricultores levarão o cânhamo até às vossas instalações?
Como disse antes, acompanharemos o processo, desde a obtenção da licença, compra das sementes, preparação do solo, cultivo e colheita. Pretendemos também providenciar a maquinaria necessária e o transporte do agricultor até às nossas instalações para ser processado. Emitiremos igualmente um contrato de promessa de compra de toda a produção, o que por um lado ajuda a obter a licenciamento e garante o escoamento ao agricultor. Acompanharemos também o processo de maceração que é essencial para garantir que a fibra e a palha possam ser obtidas com a mais alta qualidade. Estamos a trabalhar em conjunto com a associação de produtores de cânhamo Lusicanna, para garantir que os agricultores sejam apoiados, técnica e financeiramente. Nunca é demais salientar que este cultivo, ajudará a regenerar e limpar o solo, sem consumir herbicidas, pesticidas e utilizando muito menos água do que outras culturas convencionais. Por fim é importante salientar que a Cânhamor só comprará e transformará cânhamo biológico.
______________________________________________________________________

 

____________________________________________________________________________________________________

[Aviso: Por favor, tenha em atenção que este texto foi originalmente escrito em Português e é traduzido para inglês e outros idiomas através de um tradutor automático. Algumas palavras podem diferir do original e podem verificar-se gralhas ou erros noutras línguas.]

____________________________________________________________________________________________________

O que fazes com 3€ por mês? Torna-te um dos nossos Patronos! Se acreditas que o Jornalismo independente sobre canábis é necessário, subscreve um dos níveis da nossa conta no Patreon e terás acesso a brindes únicos e conteúdos exclusivos. Se formos muitos, com pouco fazemos a diferença!

+ posts

Licenciada em Jornalismo pela Universidade de Coimbra, Laura Ramos tem uma pós-graduação em Fotografia e é Jornalista desde 1998. Vencedora dos Prémios Business of Cannabis na categoria "Jornalista do Ano 2024", Laura foi correspondente do Jornal de Notícias em Roma, Itália, e Assessora de Imprensa no Gabinete da Ministra da Educação do 21º Governo Português. Tem uma certificação internacional em Permacultura (PDC) e criou o arquivo fotográfico de street-art “Say What? Lisbon” @saywhatlisbon. Co-fundadora e Editora do CannaReporter® e coordenadora da PTMC - Portugal Medical Cannabis, Laura realizou o documentário “Pacientes” e integrou o steering group da primeira Pós-Graduação em GxP’s para Canábis Medicinal em Portugal, em parceria com o Laboratório Militar e a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa.

Publicidade
Apoie o jornalismo independente sobre canábis
O Cannareporter precisa de si para continuar a informar
Se o nosso trabalho o ajuda a manter-se atualizado sobre políticas, ciência e indústria da canábis, considere apoiar com um contributo mensal no Patreon. Cada apoio conta para manter o projeto livre e independente.
Apoiar no Patreon
Pode cancelar o apoio em qualquer altura. Obrigado por fazer parte da nossa comunidade.
Clique aqui para comentar
Subscribe
Notify of

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Newsletter CannaReporter

Veja o Documentário "Pacientes"

Documentário Pacientes Laura Ramos Ajude-nos a crescer

Mais recentes

Breves4 dias atrás

Suíça: Um ano de acesso regulado à canábis em farmácias não agravou a saúde mental dos consumidores

Um estudo com revisão por pares sobre o projecto-piloto Weed Care, em Basileia, acompanhou durante um ano 374 consumidores regulares...

Breves4 dias atrás

Canadá: Health Canada publica guia para validar métodos de análise de canábis

O Ministério da Saúde do Canadá (Health Canada) publicou a 15 de Setembro uma guia com critérios para validar os...

Breves4 dias atrás

Alemanha: Presidente do governo da Baviera defende imposto sobre canábis à semelhança do álcool e tabaco

Markus Söder, presidente do governo regional da Baviera e líder da CSU, defendeu a criação de um imposto sobre o...

Internacional4 dias atrás

Uruguai: Governo regulamenta uso de derivados de canábis em cosméticos

O Uruguai regulamentou a utilização de derivados de Cannabis sativa L. como matérias-primas em produtos cosméticos, através do Decreto n.º...

Breves6 dias atrás

Dinamarca: Regulador não identificou novas preocupações de segurança com canábis medicinal em 2025

A Agência Dinamarquesa de Medicamentos não encontrou novas preocupações de segurança relacionadas com a canábis medicinal em 2025, apesar de...

Breves6 dias atrás

Islândia: Empresa cultiva cânhamo rico em CBD no Árctico apesar do fotoperíodo extremo

A empresa familiar High Latitude Hemp cultiva cânhamo rico em CBD em Bolungarvík, nos fiordes ocidentais da Islândia, a 66...

Breves6 dias atrás

Alemanha: Ministro da Saúde quer travar abuso na canábis medicinal

O ministro alemão da Saúde, Carsten Linnemann (CDU), afirmou no Congresso de Farmacêuticos, em Munique, que a situação da canábis...

Espanha: Importações de canábis medicinal aceleram e Portugal é o principal fornecedor Espanha: Importações de canábis medicinal aceleram e Portugal é o principal fornecedor
Breves6 dias atrás

Espanha: Importações de canábis medicinal aceleram e Portugal é o principal fornecedor

As importações de canábis medicinal em Espanha estão a aumentar em 2026, com Portugal a liderar como país de origem....

Breves6 dias atrás

EUA: Webinar promovido pela Harris Sliwoski analisa acção da DEA face à reclassificação da canábis

A firma de advogados Harris Sliwoski LLP organiza a 8 de Outubro de 2026 um seminário online gratuito sobre a...

Breves6 dias atrás

EUA: Trulieve firma parceria exclusiva com a Tikun Olam na Florida

A Trulieve anunciou uma parceria exclusiva com a Tikun Olam, empresa de canábis medicinal fundada em Israel, para disponibilizar os...