Entrevistas
Stefan Adomeit, CEO da Remexian: “Do ponto de vista farmacêutico, a qualidade da flor de canábis portuguesa é excelente”
Num dos movimentos mais relevantes dos últimos anos no sector europeu da canábis medicinal, a canadiana High Tide Inc. adquiriu uma participação maioritária na Remexian Pharma GmbH, consolidando uma operação que colocou a distribuição farmacêutica no centro da estratégia de expansão internacional do grupo. A transacção reforçou o peso da Alemanha como principal mercado europeu de canábis medicinal e destacou a Remexian como um dos actores mais influentes da cadeia de abastecimento do continente.
Stefan Adomeit, CEO da Remexian Pharma, é um dos responsáveis pelo crescimento que transformou a distribuidora num parceiro estratégico para produtores europeus e internacionais. Juntamente com Francesco Baganz, Adomeit ajudou a posicionar a empresa como um elo central entre produção e acesso ao mercado alemão, num contexto de rápida expansão da procura e crescente profissionalização do sector.
Os resultados mais recentes confirmam essa trajectória: já integrada na High Tide, a Remexian atingiu um novo recorde ao distribuir 7,6 toneladas de canábis medicinal num único trimestre na Alemanha, reforçando a sua posição entre os principais distribuidores farmacêuticos do país. Com uma estratégia fortemente orientada para o fornecimento europeu, a empresa trabalha actualmente com vários produtores portugueses, acompanhando o crescimento da capacidade industrial nacional e o papel cada vez mais relevante de Portugal no abastecimento do mercado alemão.
Antes da Remexian, Stefan Adomeit construiu carreira na indústria farmacêutica especializada, tendo liderado empresas como a INOPHA GmbH, dedicada à importação e distribuição de medicamentos da União Europeia nas áreas da oncologia, VIH e reumatologia, e a ChiruTec GmbH, focada na distribuição de dispositivos médicos. A sua experiência concentra-se sobretudo na expansão de negócios farmacêuticos em mercados altamente regulamentados, gestão da cadeia de abastecimento e conformidade com padrões de qualidade como EU-GMP e GDP (Boas práticas de Distribuição).
Falámos com Stefan Adomeit durante o ICBC 2026, no Hotel Estrel, em Berlim, para perceber como está a evoluir o mercado alemão da canábis medicinal e discutir o papel crescente de Portugal numa cadeia de abastecimento cada vez mais europeia e competitiva.
De onde surgiu a Remexian? Quando a fundaram e porquê?
Fundámos a empresa em 2018, depois de a canábis medicinal se ter tornado mais comum na Alemanha. Eu trabalhava numa pequena empresa farmacêutica focada no comércio paralelo na Europa e na Alemanha, e procurávamos oportunidades de negócio adjacentes. Quando não ganhámos a licitação alemã para o cultivo, adoptámos uma abordagem pragmática e decidimos importar canábis. Assim, contratei o meu co-CEO, Franco, para construir a empresa comigo.
Qual tem sido o objectivo da empresa? Qual é o vosso foco?
O nosso foco é claramente em produtos à base de flores. Trazemos diferentes flores de canábis para a Alemanha para ajudar os pacientes. Nos primeiros anos, focámo-nos em obter todas as licenças, o que levou tempo. Começámos a importar em 2021.

Stefan Adomeit e Francesco Baganz, da Remexian Pharma. Foto: Yorck Maecke
Vocês trabalham bastante com Portugal. Como tem sido a vossa experiência a comprar flores de Portugal?
Trabalhamos com Portugal de duas formas: compramos flores de canábis e utilizamos Portugal como centro de processamento. Portugal tem uma forte base farmacêutica e temos experiência com a indústria da canábis lá enquanto profissionais. Os atrasos do ano passado foram lamentáveis e Portugal perdeu um pouco de ritmo, o que abriu espaço para a entrada de outros países europeus.
Como lidaram com os problemas em Portugal?
No final, tudo ficou resolvido e recebemos os nossos produtos. Isto causou um impacto financeiro significativo e coincidiu com a aquisição da Remexian Pharma pela High Tide. Dois grandes eventos ao mesmo tempo. Mas conseguimos superar, assim como os nossos processadores e parceiros. No final, saímos todos mais fortes. Os processos melhoraram e o nosso trabalho com as autoridades tornou-se mais detalhado, o que será útil no futuro.
Então acredita no velho provérbio “o que não te mata torna-te mais forte”?
Sim, com certeza. Estamos felizes que os nossos parceiros tenham ultrapassado isso. Foi um ano difícil para eles e para nós também.
Quem são os seus principais parceiros em Portugal?
Obtemos flores principalmente da Agrivabe. Os nossos parceiros de processamento incluem Cannprisma, Canapac, Blossom, Medicane e Canna.biz, entre outros. Somos propositadamente diversificados.
Há muitos produtores em Portugal. No ano passado, após as rusgas policiais portuguesas a algumas empresas de canábis, que foram a excepção, e não a regra, algumas pessoas apontam o dedo a Portugal e chamam-lhe um “centro de GMP washing”. O que pensa disso?
Não gosto desse termo, “GMP washing”… o que significa? Comparado com outros produtos farmacêuticos, o que acontece é um processo normal: compra um produto que deve cumprir requisitos definidos, continua o processamento dentro da cadeia de abastecimento e depois testa e liberta. A Europa faz isso rotineiramente na indústria farmacêutica tradicional. Apontar o dedo é desnecessário. Portugal tem uma indústria farmacêutica muito profissional, processos robustos e uma supervisão regulamentar sólida.
Como avalia a qualidade da flor de canábis portuguesa?
Compramos principalmente flores de estufa. Têm um aspecto diferente das flores de interior, mas os resultados dos testes laboratoriais são muito bons. Do ponto de vista farmacêutico, a qualidade da flor de canábis portuguesa é excelente.
De que outros países importam flores?
O Canadá é uma fonte importante, com uma indústria grande e experiente e de alta qualidade. O nosso novo accionista [a High Tide] tem bons contactos no Canadá e apoia a nossa importação de lá. Também compramos a outros países, sempre que os produtos cumprem os nossos padrões de qualidade.
Quantos doentes estão a fornecer na Alemanha?
É difícil de calcular, pois não temos contacto directo com os doentes, devido às rigorosas normas de protecção de dados. No entanto, estimamos que cerca de 70.000 doentes por mês sejam atendidos através de farmácias.
Quantos produtos diferentes têm e qual é o seu foco?
Actualmente, apenas oferecemos flores e estamos a trabalhar noutros produtos relacionados com a canábis. Dispomos de uma grande variedade de produtos, com mais de 200 SKUs activos no mercado. O nosso principal objectivo é tornar o acesso dos pacientes às flores o mais fácil e fiável possível. Os médicos definem as indicações e nós oferecemos um amplo portfólio para que a maioria dos pacientes possa ser devidamente atendida.
Apenas algumas semanas após a decisão do Tribunal Federal de Justiça da Alemanha sobre a publicidade aos tratamentos com canábis, qual a sua opinião sobre essa situação, considerando também a reforma prevista da MedCanG? Determinará se o actual boom será seguido por uma correcção?
Os políticos alemães estão a discutir a nova regulamentação do mercado da canábis medicinal e as opiniões divergem sobre o alcance do uso medicinal da canábis. Duas medidas mudariam completamente o debate e poderiam alterar significativamente o mercado: restringir o acesso através de clínicas de telemedicina, exigindo mais consultas presenciais, e limitar o envio de canábis por correio, especialmente flores, pelas farmácias. As teleclínicas são grandes prescritoras e um número relativamente pequeno de farmácias lida com uma grande fatia do fornecimento por correspondência. A nossa principal tese é que já temos regras suficientes para lidar com os problemas, particularmente a publicidade a medicamentos sujeitos a receita médica. Estas regras devem ser aplicadas de forma consistente. Decisões judiciais recentes confirmaram que a canábis é um produto farmacêutico e que se aplicam restrições à publicidade. Regras claras e justas, bem como a sua aplicação, são mais importantes do que a introdução de novas proibições.

Stefan Adomeit num dos painéis do ICBC 2026, em Berlim. Foto: D.R.
Se pudesse definir uma nova estrutura regulamentar na indústria da canábis, o que mudaria?
Introduziria penalidades mais elevadas e uma fiscalização mais rigorosa para as violações de publicidade. Precisamos também de uma maior capacidade de fiscalização contra as teleclínicas que operam noutros países da UE. Qualquer teleclínica activa na Alemanha deve ser obrigada a designar um destinatário legal responsável com um endereço alemão para a recepção de citações judiciais, a fim de melhorar a aplicação da lei.
Qual é o seu principal foco e o da Remexian neste momento?
Garantir o acesso a todos os doentes que necessitem destes produtos. Os decisores políticos devem ter em conta os doentes e muitos sofrem de doenças graves. O nosso objectivo é ser um parceiro justo para as farmácias e manter os preços acessíveis, uma vez que a maioria dos doentes paga do seu bolso.
Não existe reembolso para os pacientes alemães?
Só para muito poucos. A maioria dos doentes precisa de pagar os produtos do seu próprio bolso. É por isso que nos concentramos na qualidade e na acessibilidade. Recentemente, houve discussões sobre a remoção do reembolso para as flores. Isso prejudicaria os poucos doentes reembolsados que dependem delas.
Acha que as flores poderiam, um dia, vir a ser retiradas das farmácias na Alemanha?
Não acredito nisso. Como indústria, devemos continuar a desenvolver produtos alternativos, mas, em alguns casos, os extractos não são um substituto das flores. As flores de canábis não possuem licenças no sentido de um produto farmacêutico tradicional, o que é uma particularidade regulamentar, mas, enquanto ajudarem os doentes, deverão continuar disponíveis.
Como vê a situação de países como Espanha ou França, que não permitem as flores nos seus sistemas de saúde?
Cada país decide por si. Na Alemanha, antes da canábis medicinal ser amplamente permitida, alguns doentes recebiam isenções do BfArM para importar flores. Decisões judiciais subsequentes abriram o mercado. As flores fazem parte do sistema porque ajudam os doentes.

Live Bud Green Joy, Remexian Pharma. Foto: D.R.
Que quantidade de flores importam para vender na Alemanha?
Não posso divulgar os números actuais porque a nossa empresa-mãe é de capital aberto. Mas posso dizer que importámos cerca de 21 toneladas em 2025. Somos um player importante.
E estão a crescer?
Esse sempre foi o plano, mas depende da regulamentação. Faremos o possível para crescer e servir os doentes, mantendo a flexibilidade.
Acha que a Alemanha deve ser vista como um exemplo para outros países?
Sim. A Alemanha teve a oportunidade de construir uma nova indústria. Desenvolveu-se rapidamente, não apenas em vendas, mas também em profissionalismo e fiabilidade. Temos agora uma indústria forte que pode servir de bom exemplo.
Por fim, como foi para si a ICBC 2026? Quais foram as principais aprendizagens?
Foi muito interessante e intenso. Conhecemos pessoas de todo o mundo e os países têm visões diferentes sobre a canábis. Na Europa, a canábis é amplamente tratada como um produto medicinal, enquanto a América do Norte tem uma abordagem diferente. Como resultado, as regras variam bastante e os modelos de negócio têm de se adaptar a cada mercado.
Quais são os próximos mercados emergentes?
Na Europa, o Reino Unido está a crescer fortemente e a França tem um enorme potencial, independentemente de se concentrar nas flores ou nos extractos. Fora da Europa, a Tailândia é frequentemente mencionada como produtora e o Brasil decidiu recentemente regulamentar a produção de canábis, o que terá um impacto significativo na América do Sul.
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[Aviso: Por favor, tenha em atenção que este texto foi originalmente escrito em Português e é traduzido para inglês e outros idiomas através de um tradutor automático. Algumas palavras podem diferir do original e podem verificar-se gralhas ou erros noutras línguas.]____________________________________________________________________________________________________
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Licenciada em Jornalismo pela Universidade de Coimbra, Laura Ramos tem uma pós-graduação em Fotografia e é Jornalista desde 1998. Vencedora dos Prémios Business of Cannabis na categoria "Jornalista do Ano 2024", Laura foi correspondente do Jornal de Notícias em Roma, Itália, e Assessora de Imprensa no Gabinete da Ministra da Educação do 21º Governo Português. Tem uma certificação internacional em Permacultura (PDC) e criou o arquivo fotográfico de street-art “Say What? Lisbon” @saywhatlisbon. Co-fundadora e Editora do CannaReporter® e coordenadora da PTMC - Portugal Medical Cannabis, Laura realizou o documentário “Pacientes” e integrou o steering group da primeira Pós-Graduação em GxP’s para Canábis Medicinal em Portugal, em parceria com o Laboratório Militar e a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa.




