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Para além do “Abstract”: o que a revisão sobre canabinóides em saúde mental, publicada na The Lancet Psychiatry, realmente revela

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Uma nova e importante revisão sistemática publicada pela revista The Lancet Psychiatry concluiu que as evidências disponíveis raramente justificam a prescrição rotineira de canabinóides para as condições mentais e a dependência de drogas. Como acontece frequentemente, grande parte da cobertura mediática distorceu ou interpretou erradamente as conclusões desta meta-análise. Neste artigo, analisamos em profundidade as conclusões que se podem retirar deste novo estudo.

A publicação do estudo “Eficácia e segurança dos canabinóides no tratamento de transtornos mentais e perturbações por uso de substâncias: uma revisão sistemática e meta-análise”, publicada pela revista The Lancet Psychiatry no dia 16 de março, surge numa altura em que as prescrições de canábis medicinal para transtornos mentais estão a ser intensamente questionadas. 

Este estudo foi amplamente divulgado pelos principais órgãos de comunicação social do Reino Unido e a nível internacional, trazendo à tona um debate crucial, mas controverso. 

E como acontece frequentemente, grande parte da cobertura mediática distorceu ou interpretou erradamente os dados – o que torna ainda mais importante a compreensão precisa das conclusões desta nova revisão.

Que estudo é este?

Liderada pelo Dr. Jack Wilson, do Centro Matilda da Universidade de Sydney, com a coautoria do Professor Tom Freeman, do Grupo de Dependência e Saúde Mental da Universidade de Bath, a nova revisão sistemática publicada agora, é a maior e mais abrangente meta-análise sobre o uso de canabinóides e o consumo de substâncias para as condições mentais feita até à data, baseada exclusivamente em Ensaios Clínicos Randomizados (ECR).

Os investigadores analisaram 5774 estudos e incluíram 54 ensaios clínicos randomizados, publicados entre 1980 e maio de 2025, com um total de 2.477 participantes.

O estudo analisou os canabinóides como tratamento primário para qualquer condição mental ou transtorno associado ao de substâncias. Foram excluídos os dados observacionais e as amostras não-clínicas, com a justificação de que os ECR continuam a ser o golden standard para estabelecer se um tratamento funciona ou não.

O que foi observado?

A maioria das reportagens nos meios de comunicação tradicionais relatou com precisão a conclusão que dava o melhor título: o consumo de canábis não parece ter benefícios significativos para a ansiedade, stress pós-traumático (SPT), transtornos psicóticos, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), anorexia nervosa ou perturbações pelo uso de opioides, enquanto os canabinóides aumentaram o desejo de consumir cocaína em comparação com o placebo.

Crucialmente, não há um ECR que avalie os canabinóides para a depressão – uma ausência notável, dado que a depressão está entre os motivos mais comuns para a prescrição de canábis medicinal na maioria dos principais mercados legalizados.

E há sinais positivos. A combinação de CBD e THC reduziu os sintomas de abstinência de canábis e o uso semanal da substância em pessoas com perturbações por uso de canábis. A mesma combinação também reduziu a gravidade dos tiques na síndrome de Tourette. Os canabinóides foram associados à redução dos traços autistas nos transtornos do espectro do autismo e ao aumento do tempo de sono em doentes com insónia.

Em relação à segurança, os consumidores de canabinóides apresentaram significativamente mais eventos adversos do que os grupos placebo. Por cada sete doentes tratados, um apresentou um evento adverso que não teria ocorrido com o placebo. Os eventos adversos graves não diferiram significativamente entre os grupos.

https://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(26)00015-5/fulltext

O problema das certezas

É aqui que a maioria das reportagens convencionais falhou. Os investigadores utilizaram a estrutura GRADE, uma ferramenta-padrão para avaliar a qualidade da evidência, e os resultados são consideravelmente mais cautelosos do que muitas manchetes sugerem.

As certezas das evidências para a maior parte dos desfechos foi classificada como muito baixa ou baixa. Em termos GRADE, muito baixa significa que existe muito pouca confiança na evidência do efeito e que o efeito real pode ser substancialmente diferente.

Crucialmente, para médicos e doentes, isto significa que estes números não podem ser utilizados como base para a aplicação no tratamento.

Os resultados positivos para a síndrome de Tourette, perturbação do espectro do autismo e perturbação por uso de canábis apresentam um nível de certeza muito baixo. O resultado relativo ao tempo de sono, medido por um dispositivo eletrónico, foi o único em toda a revisão classificado como de certeza moderada, e mesmo este torna-se não-significativo quando os estudos com alto-risco-de-viés (bias) foram removidos da análise de sensibilidade.

A qualidade dos ensaios clínicos subjacentes agrava ainda mais esta situação: quase metade de todos os ensaios incluídos, 24 em 54, foram classificados como de alto-risco-de-viés.

O próprio artigo constata que 20% dos ensaios incluídos levantaram preocupações sobre conflitos de interesses, ligações dos autores com a indústria e o papel pouco claro dos patrocinadores no desenho e divulgação dos estudos. Mas esta constatação recebeu muito pouca atenção.

A média de participantes por ensaio clínico foi de apenas 31.5 e a medição dos desfechos também variou significativamente. O consumo de canábis, por exemplo, foi tipicamente avaliado através do autorrelato, em vez da verificação objetiva, uma limitação reconhecida pelos autores e que reduz a confiança na magnitude dos efeitos, mesmo quando a direção foi consistente.

Portanto, trata-se de uma base de evidência frágil e não de um grande conjunto de dados clínicos.

A lacuna mais importante

A descoberta mais importante deste estudo, porém, é a discrepância estrutural entre o local onde os canabinóides foram prescritos e o local onde se encontram as evidências reais.

A insónia, a ansiedade, a depressão e o SPT estão entre as principais indicações para o uso medicinal de canábis na maior parte dos mercados legalizados, incluindo os EUA, Canadá, Austrália e Reino Unido.

O artigo não encontrou qualquer evidência em ECR para a depressão, nenhum efeito significativo para a ansiedade ou PTSD e apenas quatro ECR para distúrbios do sono, resultando num único desfecho de certeza moderada que se fragmentou sob a análise. As condições que impulsionam o crescimento das prescrições são, precisamente, aquelas para as quais a evidência é mais fraca ou inexistente. Os autores observam ainda que a maioria dos ensaios incluídos utilizou canabinóides de grau farmacêutico licenciados, como o Sativex, em vez dos produtos não-licenciados com elevado teor de THC que agora dominam o mercado no mundo real.

Os efeitos secundários observados em ensaios rigorosamente controlados com produtos de grau farmacêutico podem não refletir o que acontece quando os doentes utilizam canábis de alta potência não-regulamentada, adquiridos através de clínicas privadas.

O que algumas notícias reportaram mal

Várias publicações confundiram os canabinóides farmacêuticos registados com a canábis recreativa, atribuindo os danos desta última aos primeiros.

Algumas apresentaram respostas da indústria, citando geralmente dados observacionais do mundo real provenientes de registos clínicos, com o mesmo peso metodológico da evidência de ECR, sem observar que os dados observacionais não podem estabelecer causalidade da mesma forma que os ensaios randomizados. É precisamente por isto que os autores os excluíram.

Outras importaram comentários de críticos da canábis de longa data, cujas posições vão muito além de tudo o que este estudo estabelece.

As conclusões dos efeitos adversos – um por cada sete doentes tratados – foram ignorados na maior parte das notícias.

A moldura de evidência GRADE foi ignorada ou reduzida à palavra “baixa” sem explicação. A lacuna nos ECR para a depressão foi mencionada de passagem, em vez de ser tratada como a descoberta significativa que é.

No entanto, é importante lembrar que o ónus da prova recai sobre o próprio tratamento. Na regulamentação farmacêutica de qualquer outra classe de medicamentos, a evidência limitada a um nível de certeza muito baixo não apoiaria a expansão contínua da prescrição.

“Os doentes merecem o quadro completo, e não manchetes simplistas criadas para gerar cliques.”

O Dr. Simon Erridge, Diretor de Investigação da Clínica Curaleaf, declarou à imprensa: “Existe uma diferença crucial entre provas limitadas e provas de ausência de efeito, e isto é extremamente importante, mas muitas vezes perde-se na cobertura mediática mais ampla.

“Dados do mundo real provenientes de bases de dados como o Registo de Canábis Medicinal do Reino Unido (UK Medical Cannabis Registry) oferecem informações valiosas sobre os resultados de doentes fora das condições dos ensaios clínicos, e este trabalho precisa de continuar a ser feito em conjunto com estudos bem elaborados. Os doentes merecem o quadro completo, e não manchetes simplistas criadas para gerar cliques.”

A United Patients Alliance, que representa os doentes de canábis medicinal no Reino Unido, aponta ainda para os resultados reportados pelos doentes como evidência de que a investigação não acompanha a realidade clínica.

“Não estamos a pedir a ninguém que ignore a ciência. Estamos a pedir que a ciência acompanhe os nossos doentes. Estudos com provas do mundo real, resultados relatados pelos doentes e investigação sobre populações resistentes ao tratamento são urgentemente necessários e estão manifestamente ausentes.”

“Rejeitar o uso medicinal da canábis com base em evidências incompletas não só distorce a ciência, como também causa danos diretos aos doentes que dela dependem”, afirmam.

O debate entre os ensaios clínicos randomizados (ECR) e a evidência do mundo real (EMR)

Uma crítica substancial à revisão de Wilson levantada por fontes da indústria, médicos e investigadores, é que a sua base de evidência é demasiado restrita para refletir o que está realmente a ser prescrito aos doentes.

Dos 54 ensaios incluídos, 24 testaram o CBD isolado e 18 testaram o THC isolado. Apenas 12 utilizaram formulações combinadas, e mesmo estas eram produtos farmacêuticos padronizados com proporções fixas de canabinóides. Trata-se de uma janela farmacológica estreita que está a ser testada num mercado onde os doentes têm acesso a produtos com perfis de canabinóides e terpenos altamente variáveis.

A Dra. Anne Schlag, da Drug Science, o maior registo de canábis medicinal sem fins lucrativos do Reino Unido, com mais de 4.500 doentes que acompanham durante um máximo de cinco anos, explicou aos participantes do Cannabis Health Symposium porque é que os ECR podem ser particularmente inadequados para a medicina canábica.

Segundo ela, os doentes com maior probabilidade de procurar canábis medicinal são tipicamente aqueles com quadros clínicos complexos e multimórbidos, apresentando frequentemente até dez diagnósticos concomitantes, que seriam excluídos das populações rigorosamente controladas exigidas pelos Ensaios Clínicos Randomizados. Os seus dados de registo sugerem que os doentes com depressão e SPT comórbidas apresentaram uma redução significativa dos sintomas em três meses, sendo que aqueles com níveis mais elevados de depressão na linha de base experimentaram as maiores melhorias. Estes são, precisamente, os doentes que os ensaios clínicos não conseguem alcançar.

Este é um detalhe legítimo e importante: os ECR impõem estruturas rígidas que favorecem populações homogéneas, doses fixas e de curta duração, condições que não refletem a forma como os medicamentos à base de canábis são, de facto, usados na prática clínica, onde os prescritores normalmente vão ajustando as estirpes, a proporção de canabinóides e as doses gradualmente ao longo de semanas ou meses.

“O facto de não terem sido feitos ensaios pragmáticos, com poder estatístico adequado, testando produtos e populações no mundo real, é, por si só, uma constatação que merece ser examinada.”

A hipótese do “efeito entourage”, que afirma que os compostos da canábis funcionam em sinergia – o que significa que os canabinóides isolados podem não reproduzir os mesmos efeitos do que as preparações de espectro completo (full spectrum) – acrescenta uma camada extra de complexidade. A sua eficácia em humanos permanece, em grande parte, não-comprovada devido à falta de ensaios clínicos bem delineados que demonstrem que as preparações full spectrum superam as de canabinóides isolados para qualquer indicação psiquiátrica. No entanto, esta é uma justificação farmacológica plausível para explicar porque é que os atuais ECR podem estar a testar os produtos errados.

Os conjuntos de dados de registos, incluindo os do próprio Registo de Canábis Medicinal do Reino Unido, da Drug Science, do Projeto Twenty21 e das fontes da australiana TGA, oferecem vantagens que os ECR não conseguem proporcionar, tais como coortes de doentes maiores e mais diversificados, inclusão de condições mais raras, períodos de seguimento mais longos e maior validade ecológica.

Estas evidências são muito úteis para gerar hipóteses, identificar sinais relativos à segurança e chegar a populações que os ensaios clínicos não estão a atingir. Os organismos reguladores, incluindo a Agência Europeia do Medicamento (EMA), estão a reconhecer cada vez mais o papel destes dados para tomarem as decisões de licenciamento e reembolso.

Mas os dados observacionais não conseguem controlar os efeitos placebo, o viés de expectativa ou o facto de que os doentes que utilizam canábis são geralmente auto-selecionados, estão altamente motivados e, muitas vezes, estão dispostos a pagar um tratamento privado – fatores que podem inflacionar a perceção do benefício, independentemente do efeito farmacológico.

A revisão de Wilson, por seu lado, excluiu os dados observacionais, especificamente porque estas limitações impossibilitam a inferência causal, e esta decisão é metodologicamente sólida, independentemente de quantos doentes reportam melhorias.

A tensão aqui é genuína e permanece por resolver. Os defensores da evidência do mundo real (EMR) têm razão ao afirmar que os atuais ensaios clínicos randomizados não estão a testar os medicamentos que são realmente prescritos aos doentes, e que os doentes mais complexos estão a ser sistematicamente excluídos dos ensaios. E os autores da revisão de Wilson também têm razão ao afirmar que os dados não-controlados não conseguem estabelecer se os tratamentos funcionam.

Ambas as posições são válidas, mas não têm o mesmo peso quando se trata de decisões de prescrição.

A prescrição expandiu-se mais rapidamente do que a base de evidência controlada, que seria tipicamente esperada para os medicamentos utilizados nesta escala. O facto de não terem sido feitos ensaios pragmáticos com poder estatístico adequado, testando produtos e populações do mundo real, é, por si só, uma constatação que merece ser examinada.

O que os autores realmente concluíram

O artigo não conclui que os canabinóides não funcionam. O que conclui é que a base de evidência atual é demasiado pequena, demasiado tendenciosa e classificada com um nível de certeza demasiado baixo para justificar a prescrição de rotina para a maioria das condições estudadas, assim como que as condições para as quais as pessoas mais comummente usam canabinóides são, precisamente, aquelas com menos evidência para as suportar.

Os autores defendem ainda a realização de ensaios clínicos maiores e mais bem planeados, com amostras mais representativas, maior supervisão regulamentar das prescrições e com especial atenção aos mercados onde os médicos são financeiramente encorajados a recomendar estes medicamentos aos doentes.

Leia a revisão completa aqui:
PIIS2215036626000155
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Artigo publicado originalmente no Business of Cannabis a 20 de Março de 2026.

 

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[Aviso: Por favor, tenha em atenção que este texto foi originalmente escrito em Português e é traduzido para inglês e outros idiomas através de um tradutor automático. Algumas palavras podem diferir do original e podem verificar-se gralhas ou erros noutras línguas.]

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