Ciência
36º Simpósio da ICRS: Ciência ultrapassou debate sobre THC e CBD, Sistema Endocanabinóide domina a nova geração da investigação
O 36.º Simpósio da International Cannabis Research Society (ICRS), realizado em Dijón, confirmou uma tendência cada vez mais evidente: a investigação científica já deixou de estar centrada no THC e no CBD. O verdadeiro foco passou a ser o Sistema Endocanabinóide, os seus mecanismos de regulação e a descoberta de novas moléculas capazes de modular esta complexa rede biológica, abrindo caminho a futuras terapias para doenças neurológicas, inflamatórias, metabólicas e oncológicas.
Enquanto grande parte do mundo continua a olhar para a canábis apenas como uma “droga” que se fuma, a comunidade científica da ICRS está mergulhada, desde 1990, na compreensão do Sistema Endocanabinóide (SE) e da complexa rede de recetores, endocanabinóides (anandamida, 2-AG), enzimas e proteínas, que regula inúmeras funções do organismo. O objetivo já não é apenas estudar os fitocanabinóides da planta, mas perceber de que forma estes — e também moléculas sintéticas desenvolvidas em laboratório — conseguem modular este sistema, ativando-o, inibindo-o ou potenciando os seus mecanismos biológicos. Paralelamente, investigam-se outras biomoléculas envolvidas na sinalização celular e na permeabilidade das membranas, procurando compreender como podem potenciar ou alterar estes processos.
Dito de outra forma, a investigação que começou a reunir cientistas e investigadores neste simpósio há 36 anos, centra-se cada vez mais na modulação do SE para compreender o seu papel nas mais diversas doenças e identificar novos alvos terapêuticos. Grande parte deste trabalho continua a ser desenvolvido em modelos animais (sobretudo ratinhos, mas também em primatas não-humanos), recorrendo ainda a estudos in vitro e, cada vez mais, a ensaios clínicos em humanos, incluindo estudos de fase II e III com grupo de controle (placebo).

Isto voltou a ficar provado no 36º Simpósio Internacional sobre Canabinóides da organização norte-americana International Cannabinoid Research Society (ICRS), que este ano teve lugar na cidade de Dijon, França, de 28 de Junho a 2 de Julho.
Os estudos apresentados nesta edição do ICRS demonstram claramente que a investigação científica já está muito para além do THC e do CBD. O interesse centra-se sobretudo na compreensão do Sistema Endocanabinóide como um todo, explorando o potencial terapêutico de tudo o que é possível: canabinóides menores como o CBG, novos alvos moleculares como a enzima MAGL ou outras proteínas envolvidas na sinalização celular. Ou seja, em vez de estudar apenas os compostos da planta e os seus efeitos, os investigadores estão a tentar compreender a cascata de mecanismos biológicos que antecedem e sucedem a ativação do SE (upstream e downstream), identificando novos pontos de intervenção terapêutica.
Mas a investigação também está a evoluir do ponto de vista tecnológico. Equipas de diferentes áreas recorrem cada vez mais a modelos de machine learning para integrar grandes volumes de dados biológicos e clínicos, permitindo uma análise mais abrangente dos mecanismos de ação do SE. Ao mesmo tempo, novas ferramentas laboratoriais, como marcadores fluorescentes altamente seletivos para os recetores CB1 e CB2, estão a proporcionar uma visualização muito mais precisa das respostas celulares e dos efeitos da modulação desses recetores.
Em neurociência, a atenção continua fortemente centrada nos recetores CB1 predominantes no cérebro e no sistema nervoso central, e no seu papel na cognição, memória, comportamento e outras funções neurológicas. Já na investigação da inflamação, da dor e de diversas doenças sistémicas, o foco incide sobretudo nos recetores CB2, expressos principalmente nas células do sistema imunitário e em múltiplos tecidos periféricos.
Ficou também evidente que o SE é apenas uma parte de uma rede biológica muito mais vasta. Há um interesse crescente em compreender de que forma os fitocanabinóides interagem com outros recetores não canabinóides e em identificar novos endocanabinóides e outras moléculas sinalizadoras cujo papel continua por esclarecer. Outra das áreas que voltou a destacar-se foi a investigação das mitocôndrias, cuja relação com o Sistema Endocanabinóide poderá revelar-se determinante para compreender e desenvolver futuras abordagens terapêuticas para várias doenças raras e neurodegenerativas.
“Just scratching the surface”
Além da expressão “a ponta do iceberg”, repetida por vários investigadores ao longo do congresso, outras ideias transmitiam exatamente a mesma mensagem: “estamos apenas a raspar a superfície”, “é preciso continuar a estudar”, “os resultados preliminares sugerem que…”. Afinal, é assim que a ciência evolui. Muitas hipóteses acabam por não se confirmar; outras obrigam a reformular as perguntas; e cada resposta abre caminho a novas linhas de investigação.
Um dos exemplos mais evidentes desta fase de descoberta é o crescente interesse pelos chamados canabinóides “menores”. Para além do CBG e do CBN, vários investigadores referiram pela primeira vez nesta edição do ICRS o CBL (canabiciclol), uma molécula ainda muito pouco estudada, mas que poderá revelar propriedades biológicas específicas na modulação do Sistema Endocanabinóide ou de outras vias de sinalização celular.
O reduzido conhecimento sobre estes compostos deve-se, em parte, ao facto de existirem em concentrações muito baixas na planta e, também, às limitações de financiamento, que historicamente concentraram a investigação no THC e no CBD. Ainda assim, começam a surgir trabalhos dedicados a estas moléculas.
Erika T. H. Lutz e Peter J. McLaughlin, por exemplo, apresentaram em Dijon estudos sobre os potenciais efeitos do canabigerol (CBG) na ansiedade e na cognição, enquanto várias equipas revelaram que estão a decorrer novos estudos sobre canabinóides menores e também sobre as formas ácidas de compostos mais conhecidos, como o THCA e o CBDA.
Apesar destes avanços, os investigadores lembram que a planta continua longe de estar totalmente caracterizada. Para além dos canabinóides já identificados, existem ainda centenas de compostos cuja estrutura, função e potencial terapêutico permanecem praticamente desconhecidos.

O Sistema Endocanabinóide no centro da investigação
Apesar da crescente atenção dedicada aos canabinóides menores, o Canabidiol (CBD) continua a ser, de longe, o composto mais estudado na investigação biomédica. Já o THC surge sobretudo em trabalhos relacionados com a cognição, a dor, os comportamentos aditivos e outras áreas da neurociência. No entanto, o verdadeiro protagonista da investigação atual já não é nenhum canabinóide em particular, mas sim o Sistema Endocanabinóide.
A compreensão do papel deste sistema na manutenção da homeostase — regulando funções tão diversas como a resposta imunitária, o metabolismo, a dor, a memória, o humor ou o sono — transformou profundamente a forma como os investigadores olham para a fisiologia humana. Hoje, a possibilidade de modular o Sistema Endocanabinóide para intervir em diferentes doenças é considerada uma das áreas mais promissoras da medicina translacional.
Estudos apresentados em Dijon, como “Chronic FAAH inhibition modulates neuroinflammation in AD mice”, de M. Teresa Grande et al., ou “The effects of endocannabinoid and phytocannabinoid modulation in an acute mouse model of Parkinson’s disease”, de Lola E. Zovko et al., representam apenas duas das mais recentes contribuições para um campo científico que cresce a um ritmo impressionante.
Desde a identificação do recetor canabinóide CB1, em 1988, por William Devane e colaboradores, seguida pela descoberta da anandamida, do 2-AG e dos restantes componentes do Sistema Endocanabinóide, passaram pouco mais de três décadas de intensa produção científica. Nesse período foram publicados milhares de artigos, realizados centenas de ensaios clínicos e identificadas inúmeras aplicações terapêuticas potenciais. Ainda assim, este conhecimento continua longe de estar plenamente integrado na formação médica.
Raphael Mechoulam já chamava a atenção para este paradoxo no documentário “The Scientist”. Apesar dos avanços científicos das últimas décadas, o Sistema Endocanabinóide continua praticamente ausente dos currículos de muitas faculdades de Medicina. As razões serão certamente múltiplas, desde o peso histórico da proibição da canábis até à inércia dos programas académicos, mas a consequência é evidente: aquilo que não se ensina dificilmente chega à prática clínica.
Os gigantes sobre cujos ombros a ciência continua a crescer
Nos corredores da ciência parece haver um consenso: quanto mais se descobre sobre o Sistema Endocanabinóide, mais perguntas surgem. Para compreender a verdadeira dimensão deste “iceberg”, é preciso continuar a explorar um sistema que hoje sabemos estar envolvido em praticamente todos os processos fisiológicos fundamentais, “incluindo o sistema imunitário, alimentação, saciedade, plasticidade sináptica, aprendizagem, memória, dor, emoção e processamento de recompensa” (Salzet et al., 2000; Mechoulam e Parker, 2013).
Como referiu o Professor Raphael Mechoulam, o Sistema Endocanabinóide está envolvido em “essencialmente todas as doenças humanas”. Falecido em 2023, Raphi, como era conhecido no meio da canábis, continua a ser uma figura incontornável da ciência dos canabinóides e uma referência constante para quem trabalha nesta área. Em reconhecimento do seu legado, a ICRS atribui anualmente um prémio com o seu nome, distinguindo contributos excepcionais para o avanço da investigação. A vencedora da edição de 2025 foi Andrea G. Hohmann, da Indiana University Bloomington, que esteve em Dijon para apresentar os mais recentes desenvolvimentos do seu trabalho sobre o controlo da dor e adição através da modulação do SE.
Ao lado de Hohmann estiveram outras figuras incontornáveis da investigação canabinóide, como Ethan Russo, Daniele Piomelli, ou o químico Brian Thomas, distinguido Prémio de Carreira ICRS no ano passado e responsável pela palestra “Química dos canabinóides: forma, formulação e função”. A presença destes investigadores recorda que, apesar das muitas perguntas que permanecem sem resposta, existe já um património científico sólido construído ao longo de décadas.

Um dos maiores trunfos do Simpósio da ICRS é precisamente a forma como junta diferentes gerações de investigadores. Nos mesmos corredores onde circulam alguns dos nomes mais influentes da ciência canabinóide, estudantes de mestrado, doutorandos e jovens investigadores apresentam os seus primeiros trabalhos, discutem resultados junto dos posters científicos e recebem o feedback direto dos seus pares e mentores. É neste ambiente de partilha e debate que muitas das ideias que poderão marcar os próximos anos da investigação começam a ganhar forma.
Poder conhecer e trocar impressões com estas lendas vivas da ciência é um dos pontos fortes do ICRS, o simpósio de ciência canábica mais antigo do mundo, organizado por diversos cientistas desde 1970. Sociedade de Pesquisa Científica (International – Scientific Research Society) só foi formada em 1992, e foi a partir daí que começaram a organizar estes encontros de forma bienal.
Essa organização, que começou com 50 membros, tem hoje 650 cientistas associados e muito trabalho apresentados e feito em colaboração estreita entre os mais diversos laboratórios de universidades dedicados à investigação canábica em todo o mundo — embora com grande prevalência norte-americana, país de origem da ICRS.
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[Aviso: Por favor, tenha em atenção que este texto foi originalmente escrito em Português e é traduzido para inglês e outros idiomas através de um tradutor automático. Algumas palavras podem diferir do original e podem verificar-se gralhas ou erros noutras línguas.]____________________________________________________________________________________________________
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Margarita é colaboradora permanente do CannaReporter desde a sua criação, em 2017, tendo antes colaborado com outros meios de comunicação especializados em canábis, como a revista Cáñamo (Espanha), a CannaDouro Magazine (Portugal) ou a Cannapress. Fez parte da equipa original da edição da Cânhamo portuguesa, no início dos anos 2000, e da organização da Marcha Global da Marijuana em Portugal entre 2007 e 2009.
Recentemente, publicou o livro “Canábis | Maldita e Maravilhosa” (Ed. Oficina do Livro / LeYA, 2024), dedicado a difundir a história da planta, a sua relação ancestral com o Ser Humano como matéria prima, enteógeno e droga recreativa, assim como o potencial infinito que ela guarda em termos medicinais, industriais e ambientais.




