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Ciência

Canabinóides sintéticos não são canábis, são “legais” e estão a pôr consumidores que procuram a experiência psicotrópica em risco

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Enquanto as autoridades em Portugal focam a sua atenção na apreensão de produtos de CBD derivados do cânhamo cuja segurança está amplamente estudada e documentada, ignoram produtos com adição de canabinóides sintéticos que, por não fazerem parte das listas de substâncias controladas, são considerados “legais”. No entanto, os efeitos são muito mais perniciosos para a saúde e potencialmente fatais. A propósito de denúncias recentes feitas por alguns consumidores que, por não lhes ter sido dada a devida informação, passaram mal após o consumo deste tipo de substâncias compradas numa loja em Lisboa, analisámos o impacto destes neo-canabinóides e explicamos as diferenças entre os efeitos e os mecanismos de ação destas moléculas criadas em laboratório e os da canábis natural. 

Há uns dias, chegou à redação do CannaReporter® um alerta de que muitos consumidores se estavam a queixar de problemas causados pelo uso de canabinóides sintéticos comprados na loja Cana-Cali. Queixas similares estão, de facto, registadas na página da loja no Trip Advisor, embora umas das que aparece na pesquisa no Google já não se encontre disponível ao clicar no link.

Contactámos esta loja por diversas vezes, numa tentativa de falar com o proprietário para esclarecer a situação, mas, até à data, não obtivemos resposta da sua parte. 

Os canabinóides sintéticos não são canábis

Os canabinóides sintéticos e semissintéticos são muitas vezes confundidos com canábis (quando aos consumidores não lhes é prestada a devida informação) ou são procurados pelo seu efeito psicotrópico, que simula o do Delta-9-Tetra-hidrocannabinol (THC), um dos mais de 100 fitocanabinóides naturais da planta. Também são procurados porque o seu uso não é sinalizado nos testes de rastreio de drogas, uma das razões mais mencionadas para o aumento exponencial do seu consumo entre a população prisional, em muitos relatórios dedicados à evolução das adições.

No entanto, estas moléculas criadas em laboratório não têm os mesmos mecanismos de ação no organismo que os fitocanabinóides, podendo mesmo ter efeitos muitos diferentes e, em algumas situações, provocando a morte dos consumidores.

Como explicava o neurologista investigador Ethan Russo numa entrevista dada ao CannaReporter® em 2025, “muitas vezes podem ser 10 a 100 vezes mais potentes que o THC. Portanto, desde logo, isto é demasiado. Tal como um excesso de THC produz paranoia, ansiedade, ritmo cardíaco acelerado, estes são muito piores, (…).  Alguns destes canabinóides sintéticos podem ser diretamente tóxicos para o coração, o fígado ou os rins.”

Este médico, fundador da CReDO Science e uma das maiores autoridades mundiais em medicina canabinóide, deixava ainda um alerta: “Devido à proibição, há pessoas a morrer pela exposição a canabinóides sintéticos perigosos”.

A própria agência Europeia para as Drogas (EUDA), na página de apresentação do Relatório Europeu sobre Drogas 2025, já explicava que “os surtos de intoxicação podem agravar-se rapidamente, como já foi observado com os canabinóides sintéticos.”

Em 2024, só na Hungria, registaram-se 30 casos de intoxicações agudas devido ao consumo de gomas com canabinóides sintéticos potentes, com efeitos como convulsões e perda de consciência.

Nesse relatório, a EUDA dedica todo um capítulo a este tipo de substâncias, cujo consumo está a aumentar rapidamente e a criar muita preocupação, não só entre os especialistas que se dedicam a análise dos consumos de drogas, como também entre os que trabalham com a planta da canábis.

Novas substâncias psicoativas difíceis de controlar

Os canabinóides sintéticos e semissintéticos não são uma inovação da química nem da medicina. O primeiro canabinóide a ser sintetizado foi o Para-hexil (também conhecido como Synhexyl) e a descoberta é atribuída ao químico norteamericano Roger Adams, na década de 40 do século XX. Foi Adams que, na mesma altura, conseguiu isolar o Cannabidiol (CBD) e identificar a estrutura do Delta-9-THC, que só seria totalmente isolado e sintetizado pelo professor e químico israelita Raphael Mechoulam, em 1964. O Para-hexil é um análogo sintético do THC que produz efeitos semelhantes, mas é quimicamente distinto.

Depois desta descoberta, muitos outros canabinóides foram sendo isolados, transformados e sintetizados mas, até há pouco tempo, estas moléculas mantiveram-se restritas ao campo da investigação científica. Porém, com a legalização da canábis em vários pontos do mundo e a continuação Proibição no resto, estas saltaram do laboratórios para a rua e são, hoje, a única alternativa psicotrópica que muitas pessoas encontram ao THC natural da planta.

De acordo com EUDA, o primeiro canabinóide sintético a ter sido detetado foi o JWH-018, com o nome comercial Spyce, um produto das chamadas “legal highs” que ainda se pode encontrar em algumas lojas e no mercado negro. Isto aconteceu em 2008, quando as autoridades da Alemanha e da Áustria identificaram a nova molécula presente naquele produto. Mas estas “mocas legais”, que simulam várias drogas conhecidas, apareceram em meados da década de 2000 e, desde então, vão-se considerando “legais” simplesmente porque ainda não estão identificadas em nenhuma das tabelas de substâncias controladas. 

Muitas destas moléculas fazem hoje parte das chamadas “Novas Substâncias Psicoativas” (NPS – New Psychoactive Substances) e tanto para os legisladores como para as autoridades, o controlo destas NPS tem-se revelado uma luta inglória. Além da dificuldade em acompanhar o ritmo ao que são criadas, quando uma é finalmente identificada e anexada às listas de drogas controladas, rapidamente é substituídas por uma variação química da anterior que, novamente, não é “controlada”, tornando-se legal.

Já em 2017 a EUDA estava a monitorizar mais de 620 NPS, das quais 169 eram canabinóides sintéticos passíveis de serem organizados em 14 “famílias químicas reconhecíveis”.

No resumo do último Relatório sobre Drogas, na seção “Maior disponibilidade de canabinóides semissintéticos com riscos desconhecidos para a saúde”, por exemplo, A EUDA afirma que “os efeitos dos canabinóides semi-sintéticos em humanos ainda estão pouco estudados. Os relatos sugerem que estas substâncias têm efeitos semelhantes aos da canábis, com riscos de reações adversas que variam de intoxicação ligeira a grave. Dada a semelhança farmacológica dos canabinóides semi-sintéticos com a canábis, é necessário esclarecer o seu potencial para desencadear episódios psicóticos e a sua propensão para a dependência. No geral, esta variabilidade e imprevisibilidade representam um potencial risco de intoxicação para os consumidores.”

Até agora, em Portugal, só foi adicionado às referidas tabelas um canabinóide sintético: o HHC ou Hexa-hidrocanabinol. 

Como funcionam no nosso organismo?

Os canabinóides sintéticos são, portanto, substâncias criadas em laboratório que, embora tenham estruturas químicas diferentes dos compostos da planta (fitocanabinóides), são desenhadas para interagir com os mesmos recetores no corpo humano.

No entanto, os canabinóides sintéticos não são equivalentes aos da planta já que não espoletam os mesmos mecanismos de ação no organismo. Apesar de se unirem aos mesmos recetores do que os fitocanabinóides, interagem com o Sistema Endocanabinóide de forma diferente, produzindo efeitos muito distintos. 

Ethan Russo explicava o seguinte na mesma entrevista: “em primeiro lugar, os canabinóides sintéticos que têm estado disponíveis são, de um modo geral, o que eu chamo de agonistas completos do receptor CB1, em contraste com o THC. O THC é o que se chama um ‘agonista parcial fraco’. Agora, deixe-me explicar o que acabei de dizer: se pensarmos nos receptores como fechaduras e na substância como a chave, queremos um bom ajuste. Com o THC, esta é uma ligação fraca. E é assim que a natureza funciona. O THC é como a Anandamida, que também é um agonista parcial fraco; enquanto que estes canabinóides sintéticos se ligam de modo extremamente forte [aos receptores] e por isso são o que eu chamo de agonistas totais.”

E se bem que as flores de cânhamo com CBD não podem ser vendidas para uso humano (embora a sua perigosidade seja comprovadamente baixa e não haja registo de mortes associadas a ao seu uso), os canabinóides sintéticos encontram-se à venda,  com nomes como H3CBN, HPC ou 10-OH.

Na página que tem dedicada a este grupo de moléculas, a EUDA avança que com os canabinóides sintéticos “já se registaram muitos casos de intoxicações não-fatais e um número mais pequeno de mortes associadas ao seu consumo”, explicando ainda que “tendo em conta a elevada potência de alguns destes compostos, a probabilidade de que produzam efeitos tóxicos parece ser elevada. Estes riscos podem ser agravados pelo processo de fabrico, do qual poderá resultar uma distribuição desigual das substâncias presentes no material vegetal.”

Normalmente, estes canabinóides são produzidos utilizando solventes como a acetona ou o metanol para dissolver os pós, e depois aplicados mediante a pulverização nas flores de cânhamo (com CBD) ou noutro “material vegetal” que imita a sua textura, no recheio de cigarros de canábis pré-enrolados ou em comestíveis. Muitas vezes, tentam fazê-los passar por “canábis legal” mas, na verdade, nem sequer deveriam considerar-se canábis.

Quando as drogas são proibidas, as alternativas são sempre piores

Enquanto o THC continua a ser ilegal na maior parte dos países, as pessoas continuam a querer alterar a consciência e procuram substâncias que lhes proporcionem essa experiência. Assim como quem há quem goste de beber álcool ou de usar MDMA para dançar uma noite inteira, há quem prefira a canábis para relaxar, desconetar, conetar-se consigo mesmo, para estar com amigos, para pequenos rituais do dia-a-dia, para dormir, para as dores e um longo etecetera. Mas sendo ilegal e havendo procura, aparecem as alternativas. 

No entanto, como se tem vindo a verificar nos últimos anos, as alternativas são habitualmente piores do que as velhas substâncias conhecidas. Aconteceu com o fentanilo como alternativa aos opiáceos após o escândalo do Oxycontin (Oxicodona), da farmacêutica da família Sackler, que pôs no mercado um analgésico opiáceo afirmando que não criava adição, provocando assim uma enorme crise de saúde pública nos EUA, com mais de um milhão de mortes por opiáceos sintéticos desde o início desta epidemia no final da década de 1990 – sendo o fentanilo responsável por cerca de 300 mil destas overdoses.

Como reportava o jornal Público em 2023, “bastam dois miligramas de fentanilo para uma overdose fatal, tal é a sua potência, 50 vezes mais forte do que a heroína, 100 vezes mais forte do que a morfina. Na América, números assustadores, e em assustador crescendo: 70 mil mortes por overdose em 2019; 92 mil em 2020; 107 mil em 2021. Segundo o Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime, este ano já foram batidos todos os recordes, o que fica a dever-se não a um aumento do número de consumidores, mas aos efeitos devastadores daquele opioide.”

A seguir vieram os Nitazenos, fortes analgésicos químicos que se ligam aos mesmos receptores do que a heroína, que se estão a tornar um problema ainda pior. No Relatório sobre Drogas 2025, a EUDA chamou a atenção para a sua perigosidade, afirmando serem ainda mais potentes que o fentanilo.

Também foi o que aconteceu com a base de coca, o crack (cloridrato de cocaína) quando surgiu em meados dos anos 80 e início dos 90, e que muitos toxicodependentes abraçaram em substituição da heroína.

E é o que está a acontecer agora com os canabinóides sintéticos. Os consumidores procuram o efeito psicotrópico da canábis, e se esse esta não está disponível, vão buscar produtos similares no mercado legal. 

Mas e se… se tivesse legalizado a heroína, será que os consumidores teriam tido necessidade de recorrer a estes opiáceos sintéticos? O facto é que de acordo com os dados da mesma agência, na Europa a ameaça do fentanilo tem-se mantido sob controlo. Na Europa – onde os modelos de descriminalização têm permitido os programas de substituição, redução de riscos e danos e de acompanhamento dos toxicodependentes com um tratamento humano – parece haver menos problemas.

E se… se legalizasse a canábis? As pessoas iriam continuar a recorrer a canabinóides sintéticos? O que se tem verificado nos países onde o uso-adulto de canábis é legal como, por exemplo, os EUA é que a procura destas substâncias e os pedidos de ajuda associados ao seu consumo diminuiu radicalmente.

Cristalização das leis da drogas deixam consumidores expostos a maiores riscos 

Portanto, o que acontece na realidade é que os consumidores estão a ser deixados ao Deus dará. 

Enquanto as autoridades repetem a parangona da “questão de saúde pública” quando visitam as lojas de produtos-derivados-do cânhamo e fazem apreensões de milhares de Euros de stock que apenas contém CBD ou óleo e farinha de sementes de cânhamo (cientificamente estudados há quase cem anos e cujos efeitos e valor medicinal são sobejamente conhecidos – sem qualquer morte associada até à data), as pessoas estão a ser expostas a produtos cujos riscos são altos e até podem levar à morte. Mas como disse um agente da PSP a um comerciante de produtos derivados do cânhamo durante uma ação de fiscalização, “esses não levamos porque não são ilegais”.

No relatório mencionado, a EUDA conclui que tendo em conta os avanços e recuos da legalização da canábis em alguns países, “Não é claro qual será o rumo das futuras políticas europeias. O que é claro, no entanto, é que o desenvolvimento de políticas nesta área deve ser acompanhado de uma avaliação do impacto de quaisquer alterações introduzidas. Este tipo de avaliação requer dados de referência sólidos, o que reforça a necessidade de melhorarmos a nossa monitorização dos atuais padrões de utilização da droga ilícita mais consumida na Europa.”

 

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[Aviso: Por favor, tenha em atenção que este texto foi originalmente escrito em Português e é traduzido para inglês e outros idiomas através de um tradutor automático. Algumas palavras podem diferir do original e podem verificar-se gralhas ou erros noutras línguas.]

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Margarita é colaboradora permanente do CannaReporter desde a sua criação, em 2017, tendo antes colaborado com outros meios de comunicação especializados em canábis, como a revista Cáñamo (Espanha), a CannaDouro Magazine (Portugal) ou a Cannapress. Fez parte da equipa original da edição da Cânhamo portuguesa, no início dos anos 2000, e da organização da Marcha Global da Marijuana em Portugal entre 2007 e 2009.

Recentemente, publicou o livro “Canábis | Maldita e Maravilhosa” (Ed. Oficina do Livro / LeYA, 2024), dedicado a difundir a história da planta, a sua relação ancestral com o Ser Humano como matéria prima, enteógeno e droga recreativa, assim como o potencial infinito que ela guarda em termos medicinais, industriais e ambientais.

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Darryl
7 meses atrás

Confused as to legal status- no products or drugs can be legal or illegal under any law

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